Por Nelson Patriota

Quando os fatos que se sucedem, não em âmbito geral, mas doméstico, começam a chamar a nossa atenção, então nos tornamos cronistas. A leitura de “Cotidianas” (Sarau das Letras, 2012), de Rizolete Fernandes, mostra que foi esse o caminho que a autora, também poetisa, trilhou para abraçar a crônica, ou seja, a descrição de fatos circunscritos à sua vida pessoal ou de amigos próximos, à vida de seu bairro etc. A arte desse gênero reside em respeitar os limites: nunca falar de si além do estritamente necessário à compreensão do tema em destaque, que nunca pode ser o si mesmo.

Veja-se, por exemplo, a crônica intitulada “A gargalhada de Vanja”. O que acontece, de fato, nesse texto ambientado num espaço situado entre “a minha casa e o calçadão da avenida onde diariamente caminho”? Um encontro com uma senhora de idade avançada que precisa cruzar uma rua e que encontra na cronista a ajuda de que necessitava. A partir daí forma-se uma relação de amizade e companheirismo entre ambas. A idosa, cuja identidade se esgota no nome “Vanja”, se torna tão habituada a contar com a ajuda da cronista que, ao vê-la, certa vez, a distância, prorrompe numa estrepitosa gargalhada. E tem-se o desfecho da crônica.

A discrição é, aliás, um dos traços distintivos das narrativas de Rizolete. Um amigo a convida para um jantar, outro lhe oferece uma muda de planta, um francês lhe escreve; ou acontece de ela deparar com um amigo que não via desde algum tempo ou de ouvir um comentário interessante que lhe remeteu à famosa Lei de Murphy, e eis que surge uma contribuição perspicaz de uma amiga a esse mundo de leis e normas oficiais e oficiosas que regem nosso dia a dia. Seu curioso nome é “lei da implicância natural das coisas”, que trata de situações em que as coisas – quaisquer que sejam – parecem conspirar contra nós.

Desses encontros fortuitos, providenciados pela ordem oculta da vida, nasce a crônica de Rizolete, sem que os nomes por trás desses acasos precisem ser tornados públicos. Basta saber que, desde suas existências comuns, eles podem eventualmente interagir com a cronista em seu cotidiano – daí porque o livro porta o nome de “Cotidianas”.

Daí se conclui que a crônica não tem de estar a reboque de uma forma pré-fabricada. Pelo contrário, é um gênero onde reina a máxima liberdade de motivos. Por exemplo, quando a cronista firma posição contra vento e maré e decide abolir o celular de sua vida, na esteira de uma campanha promovida pelo escritor Alex Nascimento. A crônica intitulada “Se eu usasse celular” serve de exposição de motivos da escritora para se posicionar sobre essa questão.

Motivo análogo leva Rizolete a se reconhecer mais uma vez em minoria, na crônica “Onde o calor do abraço?”. Dessa vez, ela se descobre entre aqueles poucos leitores que preferem um texto escrito, uma agenda de papel, aos que elegeram o tablet, o smartphone, enfim o computador e derivados como suas plataformas preferenciais de leitura.  E novamente traz a público suas razões.

Nenhum problema que o cronista firme uma posição, se a defende de modo civilizado e convincente. Até porque permite ao leitor ver o contraditório por trás de uma ideia aparentemente institucionalizada e unânime. Sob esse aspecto, Rizolete faz uma crônica pedagógica, valorizando o espaço que o jornal lhe oferece e reunindo material suficiente para enfeixá-lo em livro.

Enfim, se a crônica diverte, faz pensar, põe em xeque valores de momento, questiona as certezas do leitor e propõe outros modos de ver as coisas, nesse caso as crônicas que Rizolete Fernandes reuniu em seu livro “Cotidianas” é uma amostra bastante representativa do gênero entre nós.

(iN TRIBUNA DO NORTE, DOMINGO)