Por Paulo Caldas Neto

"Não acho a crônica um gênero menor. Crônicas são anotações nas margens da história".
(Luís Fernando Veríssimo)

Um novo personagem das letras potiguares vem, ultimamente, chamando a atenção daqueles que acompanham a História de nossas terras e tradições. Um alguém que, mesmo sem qualquer formação acadêmica nas áreas das Ciências Humanas, Letras e Artes, demonstra competência e enfoque sobre tudo o que discorre a respeito da evolução dos tempos e do homem. Trata-se do escritor e genealogista Ormuz Barbalho Simonetti. Nascido em São José do Mipibu, mas goianinhense de coração, lançou em outubro deste ano que se acaba mais uma das inúmeras pérolas de nossa literatura, A praia da Pipa do tempo dos meus avós (Natal: Nave da palavra, 2012), uma série de crônicas, a princípio, publicadas no Jornal de Hoje, desde 2009.

Ormuz, que antes se aventurou na escrita de artigos para o jornal Tribuna do Norte, versando sobre os mais instigantes temas sociais e políticos, resolve, agora, exercitar-se em um gênero literário, considerado aparentemente por vários críticos e historiadores da Literatura Brasileira como um gênero menor, mas que, com o aflorar de novas eras, veio se impondo em relação aos demais. O primeiro estudioso da Literatura que percebera a importância educativa da crônica fora Antonio Candido, que, em seu ensaio A vida ao rés-do-chão, definiu os apectos essenciais para que o leitor enxergasse a simbologia e o valor histórico desse texto; argumentando, ademais, coloca o cronista como elo da fraternidade que traça fielmente o perfil do mundo e dos homens. Se a crônica é bem mais aceita pelo público, é porque consegue, graças ao olhar sensível e especulativo do cronista, envolver o leitor em seu diálogo informal, sem uma sintaxe erudita e um vocabulário latinista. O objetivo é criar a comunhão entre aquele que escreve e aquele que lê, tornando o discurso mais próximo de uma conversa de uma mesa de bar e sem, supostamente, qualquer preocupação com as consequências do que vai dizer. É o que está presente nas crônicas do referido livro.

O conhecimento que evendencia sobre toda a formação histórica, sociológica, geológica e genealógica da praia da Pipa, onde, segundo o autor, sua família, natural de Goianinha-RN, veraneou nos fins dos anos 20 do século passado é diretriz para o desenrolar de toda uma biografia (se assim se pode figurativizar) de um lugar que para muitos é mais um recanto turístico e paisagístico, passível de julgamentos equivocados ou não, mas que para Ormuz é mais do que isso. É uma análise dele mesmo, enquanto autor e pessoa, e da sociedade potiguar. Uma prova é que o autor, ao longo dos 62 anos que diz ter veraneado na Pipa, nos leva a um Cruzeiro pelas variadas praias do arquipélago da Pipa, explicando sua origem geológica, especialmente na crônica sobre "Os maceiós", na qual o leitor tem a oportunidade de ter uma aula de geologia. A descrição das espécies da fauna e da flora do lugar e a sua comprovação através de fotos atuais e coloridas nos proporcionam o desejo de querer revisitar a Pipa e cada ponto que ajudou a construir o seu passado histórico. O que se destaca aí é um traço familiar e jornalístico com a pretensão de se resgatar e esclarecer detalhes sobre o perfil do ambiente praieiro que Ormuz ama com todas as suas forças. Isso também é evidente nas crônicas saudosistas que retratam familiares, amigos e personagens que alimentam o lugar com suas lendas e feitos históricos.

A interdisciplinariedade discursiva é a marca da crônica composta pelo escritor em questão. Talvez dessacralizasse o estilo se ela não existisse ao longo do relato. Sendo o gênero literário adotado um relato de fatos do dia a dia, a confluência de um saber sociológico, antropológico, genealógico, histórico e geográfico mata a curiosidade de quem lê o livro pela sinceridade e obstinação em se aclarar as mentes da atualidade para os cuidados para com tudo o que constrói esse recanto de Deus, onde até um ser humano como Ormuz encontra-se próximo ao Criador. Por que isso acontece? Porque é a missão do cronista reorganizar as coisas, restabelecendo a sua dimensão. Isto é: em vez de enfatizar aquilo que é grande, pega o miúdo e dele extrai a sua grandeza. Tal postura está visível no estilo de Ormuz. Há nesse método interdisciplinar uma didática voltada sobretudo para o esclarecimento e a autorreflexão. Nesses tempos de valores desregrados, de falta de interesse pelo saber, em que o lema é "dinheiro e lucro a qualquer custo", a obra cumpre seu papel lembrando aos Órgãos Públicos e ao cidadão o cuidado com o ecossistema, a começar pelo marinho. No relato da desordem da orla da praia, com a presença dos "sombreiros" ou a desenfreada especulação imobiliária, produz-se o alerta, que é contrabalançado por momentos de estudo sobre a verdadeira origem do lugar, bem como o resgate do que é mais humanizador e simples. Até a escolha do gênero crônica foi fundamental para que se tocasse fundo o coração das pessoas.

Esses momentos de busca pelo próprio eu, para que a partir disso se possa harmonizar o meio em que se está, aparecem em crônicas como Olhando estrelas, na qual o cronista faz com que o leitor saia da desordem e retorne a ordem de si mesmo, repensando seus atos de homem moderno. De todas as crônicas que vão no livro, essa sinaliza um stand-by, pois reparte com o leitor um intimismo perdido. Ao mesmo tempo aliada à poesia e à verdade, traz implícito um humor quando compara o silêncio de uma chácara à noite, banhada pela luz da lua e o brilho das estrelas, com a algazarra das madrugadas nos feriados e datas comemorativas na Pipa dos nossos dias. Contudo, é nessa técnica que se revelam o carisma e a boa vontade em não deixar que algo se perca. Embora a crônica não tenha a pretensão de durar, porque é um gênero que ganhou força com a publicação em jornal, assim que passa à publicação em livro, adquire a sua durabilidade. Nos dizeres de Antonio Candido, no ensaio exposto antes, isso acontece em decorrência do total desprendimento aparente em salvar-se o dito. Se os textos do livro foram de início publicados em jornal, é porque aos poucos intentavam conscientizar, para depois reforçarem definitivamente o conteúdo discutido em livro. Tal técnica foi até enfocada pelo escritor potiguar Valério Mesquita quando do Posfácio Como se fora um antigo folhetim, em que o fato de cada crônica ter sido editada num veículo de comunicação social não só cumpre a função de informar, como também a de prender a atenção do leitor como os capítulos de uma boa telenovela. E é essa mesma a sensação de quem lê A praia da Pipa do tempo dos meus avós. Qualquer um se impressiona com a Pipa "do tempo da delicadeza". Jamais tamanhas informações sobre aquele lugar permeariam as mentes dos estrangeiros e dos nacionalistas que não viveram aqueles anos dourados. O saudosismo emociona e cativa também pela constatação das imagens fotográficas, cuidadosamente editadas para dar veracidade ao que se afirma.

Sobressai-se o resgate interdisciplinar entre a poesia, a música e o relato na crônica em que o autor fala de uma música composta por ele em 1968 e descreve o sentimento de um veranista cada vez que retorna a sua Pasárgada real. É quando Ormuz aproveita para também falar dos poetas e artistas que embelezavam com serenatas a Pipa dos anos 60, anos de ouro. Com esse gesto, o leitor poderá reparar a nostalgia de um alguém tentando se identificar com os costumes dos atuais veranistas, contrapondo com os costumes dos veranistas de seu tempo de infância e adolescência. Deda, mestre Francisquinho, João Peixinho, Misté, Cleto Gadelha, Paulo Barbalho dentre outros amigos e familiares, não deixando de distinguir de todos a sua saudosa mãe, D. Cirene Barbalho, ou melhor, Cirlene, como gostava de ser chamada. Como todo discurso se completa com o comentário do outro, o leitor poderá, em todas as crônicas do livro e até nas mais saudosistas, ler as apreciações que foram feitas por parentes, amigos e admiradores do autor em cada seção destinada a tal finalidade, revelando o caráter jornalístico deste.

Vale a pena o leitor, se possível deitado numa gostosa rede e de preferência na Praia da Pipa, permitir ao corpo momentos de alegria por estar em um sítio de tamanha riqueza e ao espírito, o sossego e a retomada de valores na jornada que fará, outrossim, à Pipa "do tempo da delicadeza". Como historiador, Ormuz Simonetti entrega-se ao projeto do livro com a boa vontade a qual espera que os leitores tenham na compreensão em preservar um patrimônio geográfico e cultural através da consciência própria. Só assim será possível mudar os rumos que o planeta tomará, e os efeitos da nossa total falta de altruísmo e ignorância sobre as coisas que estão a nossa volta. Brindemos a esse nascedouro documento que tantas narrativas ainda tem a nos desvendar!