Parnamirim, 31 de agosto de 2012

 

Caro poeta Drummond,

 

A vida tem mistérios que não compreendemos mesmo... Quando adolescente e você ainda estava aqui nessa dimensão conosco, sentia uma enorme vontade de lhe escrever... Mas minha timidez não me deixou fazer isso... Talvez se não tivesse amarelado de medo, teria no meu baú sua letra, seu carinho... Mashoje escrevo a um ausente... Eu sei Drummond, você, como no seu poema, antecipou a hora de ir, não lutou pela vida... Não foi duro como José... Mas Julieta não estava mais aqui... Quem vai julgar um pai pela dor da perda da filha... E você nos deixou... Ao contrário do seu poema “ A um ausente”, eu não lhe  acuso... Eu lhe compreendo... Eu também já passei por essa dor... Perdi meu primeiro amor na fase em que estavadescobrindo o amor, o mundo... E eu questionava: por que a vida me reservou isso? Por que tinha que sereu a passar por isso... Essa morte memarcou muito... E eu não chorei de amor, eu chorei de raiva... Eu acusavaele por ter ido embora tão cedo... Por ter feito aquilo comigo... Por ter destruído a magia deuma menina... Mas um dia encontrei a Literatura e ela foi um bálsamo divino para suportar e compreender as minhas dores, as minhas perdas... Confesso que nessa carta, não queria falar de amor...pois para tantos um assunto tão piegas... ou como nosso amigo Pessoa diz “todas as cartas de amor são ridículas, mas ridículos são os que nunca escreveram cartas de amor...” Assim também penso: ridículo é  quem se faz de forte, não fala de suas fraquezas...

Sabe Drummond... Hoje não sou mais aquela menina... O primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor... Mas não sei se o coração continua não... Acho que estou mais para o Leminski:

De colchãoem colchão

Chego à conclusão:

Meu lar é no chão

            Porém meu amigo Drummond, pensando bem,o chão também pode ser a cama...

Não estou bem! Sou um ser melancólico mesmo! Penso que deveria ter enviado essa carta para Florbela Espanca...  Flor Bela... Eu sou uma flor do sertão Drummond... Umcactos cheio de espinhos... Quando menina, ainda com tanta dor, eu pensava que meus ombros suportariam o mundo... Mundo, vasto mundo... Mas de vez em quando a sua voz sussurra no meu ouvido: “Vamos  Gil, não chores...  o amor é assim mesmo...”  E, então, ao invés de me precipitar nas águas, pular de  um edifício , encher os bolsos de pedras, abrir o gás, eu me precipito  na poesia... Vertigem pura...

Amigo, se eu pudesse, agora, eu iria rasgar essa carta... Mas foi o pedido de uma professora ( Ih... não deveria ter falado...) mas soube  através de uma amiga que essa professora também é poeta e  tinha um desejo de ser costureira...e terminou costurando palavras... Pois é... penso que  Tânia (esse é o nome dela) irá  entender esse meu tecido alinhavado, essa colcha de retalhos...retalhosde desejos, de sonhos, de lembranças... Às vezes me sinto assim: um seralinhavado... Se eu fosse uma costureira, penso que minha máquina de costura estaria entulhada de tecidos, linhas, retalhos, aviamentos... e as clientes esperando... Assim são meus textos, minha poesia: retalhos de sol, lua, chuva, rios, cachoeiras... Queriaalinhavar tudo isso e formar uma colcha para me cobrir, me agasalhar... Mas os retalhos estão entulhados,em cima da máquina de costura... E enquanto isso meu corpo sente frio, desejo. Nua... Completamentenua... E nos meus poemas, eu me revelo nua... Cheiade desejos...  Lacunas... E os homens leem esses poemas... E vem até a mim... Mas o que eles tocam é um corpo poético e não um corpo de carne... Então vão embora... Porque eles não querempoesia, eles querem carne... Só carne...

Não definitivamente vou rasgar essa carta... Mas novamente sua voz sussurra:

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
Por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.

É isso Drummond... Vou parar por aqui...  Esse era o assunto a tratar com você.  Não vou discutir conceitos de poesia...  Poetanão gosta disso, não! Lembrei agora de uma palestra que ArianoSuassuna nos contou que fizeram uma festa em homenagem para ele e lá nas mansões do  Morumbi, uma socialite com uma piteira enorme dando baforada na cara dele e toda pernóstica perguntou: “Ariano, uma parte da crítica literária diz que você  é regionalista, outra parte diz que você é autêntico! Mas eu quero saber de você Ariano!!!” E Ariano respondeu:  “Minha senhora, eu só sei de uma coisa: eu sou asmático e saia  com essa piteira de perto de mim agora”. Penso que essa mulher quer ver o cão e não quer ver Ariano!

Pois é... A poesia só é poesia se ela pulsa... Gosto muito do que disse nosso amigo Manoel de Barros: “Poesia não é para compreendermas para incorporar. Entender é parede: procure ser árvore.”

Paro por aqui poeta!  Vou viver... Prosseguir... Quem saber fazer como Leminsk: “ Não discuto com o destino, o que pintar eu assino.” E esse tal de amor,  tem gente que não saca nada mesmo... Ana Cristina Cesar tinha razão...

Abraços poéticos,

Gilvânia Machado