A respeito da crônica do nosso Patrono, Pedro Simões Neto, denominada “A rua das Casas Geminadas” (publicada nesta página, mas que já havia sido divulgada antes, através de um periódico virtual que o mesmo fazia circular), a historiadora, professora universitária, escritora e cearamirinense Maria das Graças Brandão Soares escreveu o seguinte:

Oi, Pedrinho,

seu texto me fez recordar meu passado, na velha rua Heráclio Vilar. Nela passamos felizes, nossos primeiros anos de casados. Era uma casinha simples, pertencia a Dona Lima, tia de Flora, mulher de Edgar Varela. 
Diante dos meus olhos pareço ver pessoas, casas e cenas típicas de um cotidiano morno, de toda cidade interiorana. Muros do Instituto Imaculada Conceição, administrada por Padre Rui Miranda. Posto de saúde, maternidade, a "Bodega de Bubu”, o cartório de Seu Antônio Potengi, a casa de Simão, de João de Castro e Zoneide, nossos vizinhos compadres. 
Na esquina da Heráclio Vilar, o velho Café de Cleto, contrastando com a beleza do casarão de Dr. Canindé. A mansão de Batu e Madrinha Elita; a casa de Seu Valmir e Dona Celina ecoando acordes das valsas de Strauss. Caminho até a bodega de Seu Chico Dantas, a casa de Djalma e Maria Correia, de Seu Chicó, Jorginho Barreto, Seu Aurelino e Dona Augusta. Na esquina, um par de leões, quais duas esfinges, na escadaria da casa de Seu Clóvis e Dona Cremilda, guardavam a paz dos moradores da Heráclio Vilar. 
A rua era percurso dos habitantes nas manhãs de domingo que acordavam com o soar dos sinos da Matriz anunciando a celebração da santa missa. Trajeto dos caminhões carregados de cana-de-açúcar em direção as Usinas em época de safra. A rua enchia-se de risos e algazarras nas manhãs, com crianças dirigindo-se aos portões do colégio "de Padre Rui". Caminho dos moradores humildes da usina São Francisco à feira domingueira no mercado. Trajeto dos doentes e futuras mamães carregando em seus ventres, o fruto bendito da esperança, rumo ao hospital-maternidade da Heráclio Vilar. Viagem derradeira para os que buscavam morada no cemitério da cidade. Abrigo de alegria no mês de junho nos alegres ensaios de quadrilhas juninas, com sons ecoando de suas salas e passos ritmados dos alegres matutos. 
Na subida da ladeira do mercado a moderna casa ajardinada, abrigando o casal Dr. Percílio e Dona Esmeralda. Defronte, a casa de Seu Jorge Moura e posteriormente a residência de Seu Pedro Costa.
Não sei se sinto alegria ou uma imensa saudade ao recordar um tempo passado, presente em nossas carnes e veias, como bem sintetizou o poeta Drummond: "Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara sem uso. Ela nos espia do aparador”. Abraço.
Gracinha Brandão Soares