Clauder Arcanjo

Para A.M.D.F.

 

Terça-feira. 6 de janeiro, Dia dos Reis Magos. A doença de um amigo próximo me levara ao hospital. Sempre fui avesso a tais visitas, em geral me dão náusea e sentimento de morte próxima. No entanto, eu não poderia faltar com Sávio Carvalho Domingos, amigo das letras; hoje, coitado, sabia-o velho e quase abandonado por todos.

Entrei de mansinho, um longo corredor branco. “Silêncio de necrotério” — pensei, com o meu humor ferino e mal posto.

A enfermeira chefe, penteada com um coque da moda, e impecavelmente de branco, abordou-me:

— Bom dia. O que o senhor deseja?

Quase que, num rasgo de ironia, respondia-lhe: “A saúde eterna!” Contudo, contive-me e indaguei-a acerca do número do quarto do senhor Sávio Carvalho Domingos.

— Um minuto, por favor.

Entrou numa espécie de secretaria e, ao sair, anunciou-me, bem baixinho, como a confidenciar-me algo ultrassecreto:

— Ele está na UTI. O caso inspira... cuidados.

Conduziu-me a uma espécie de antessala. Lá, uma senhora de idade rezava um rosário. Sentei-me, e ela saudou-me:

 — Alguém da família?

— Não. Bem... De certa forma, sim. Um amigo.

— No meu caso, o meu genro. Apesar de desenganado, não perco a fé. Minha filha foi descansar um pouco, e eu estou aqui. Sempre à espera de notícias. Tenho muita fé na Virgem Maria e em São Francisco das Chagas. Fiz-lhes até promessas. Caso ele se recupere, eu irei a Canindé, assistir, com toda a família, à Missa dos Vaqueiros.

Os anos marcaram profundamente o rosto daquela senhora. A idade rompera a barreira dos oitenta anos, supus.

Estabeleceu-se, de repente, uma intimidade repentina entre nós.

— Meu nome é Rosalina Dumas. Minha filha se chama Antonina Marlúcia Dumas Ferreira. Ela namorou muito cedo. Ele era o seu professor de Álgebra. Entre os exercícios matemáticos, a lógica de uma paixão desregrada, tomando, avassaladoramente, o coração de minha Antonina. Namoro arrochado. Ele, mais velho; ela, jovem moçoila. Pegou logo um bucho. Meu marido quis ajustar as contas com o avançadinho, mas o contive. Quando descobri depois que, na verdade, havia duas namoradas grávidas..., a coisa tomou jeito de tragédia. Correu conversa de aborto, porém, graças a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo, Antonina botou o pé nos peitos do cabra e disse-lhe que teria a criança. Com pai ou sem pai. A outra, comentaram à boca miúda, perdeu a cria. Três meses depois, o casório se deu. O cabrinha era safado como poucos: no dia seguinte à lua de mel, saiu de casa e foi se encontrar com a segunda, no único motel da cidade. Deram notícias dele, saindo com a cabeça cheia de cachaça, a se pabular de garanhão das redondezas. Meu filho mais velho o arrastou para casa, não sem antes lhe dar uma coça das boas. O sujeito ficou bom do porre em dois tempos. Cinco meses depois, nascia o nosso primeiro neto. A cara do pai, vixe Maria!, cagado e cuspido. Ano seguinte, a nossa neta. E, dez meses à frente, o mais novo: o netinho caçula. Hoje, este é um respeitado advogado, orador como poucos. Toda defesa dele é uma festa para os ouvidos. Puxou ao Sebastião, o meu avô materno. Relatam alguns que bivô Tião botava bode em chuva. Dominava a arte da conversa macia, macia qual seda pura.

A prosa corria solta, Dona Rosalina me prendia com aquela história singular.

— Pensa que o sujeito se consertou com o tempo?! Nada, as notícias de outras mancebias e da dinheirama que ele perdia no pôquer era coisa de deixar careca arrepiado. Certa noite, altas horas, minha filha bate à nossa porta, dizendo que não aguentava mais: — Mamãe, não me peça para voltar para aquele desgraçado! Pelo amor de Deus, ouviu? Preparei-lhe um chá de camomila, ajeitei as crianças no quarto de visita. Sim, ela trazia as três crianças a tiracolo. De mala e cuia. Duas horas depois, arrumei, de novo, todas as malas, botei tudo num táxi, dizendo-lhe, sem aceitar contestação: — Volte e vá cuidar do seu esposo! Vida de mãe separada, em especial em cidadezinha pequena, é coisa muito triste. As crianças viverão enjeitadas? Tudo passa, não há enchente que não baixe. Suporte a sua cruz, minha filha!; todos nós temos a nossa.

Nesta hora, uma nesga de dor assomou aos seus lábios murchos. Como se lhe punisse rememorar aquilo tudo.

— E hoje, pelo menos no meu relógio, são seis de janeiro. Que coincidência! Foi aos 6 de janeiro de 1978 que, segundo Antonina, ele roubou-lhe a honra. Levou-a, num fusquinha esportivo, para um motel. No caminho (neste instante, Dona Rosalina esboçou um sorriso), quase que ocorreu uma desgraça. O sem-vergonha largou as mãos do volante e foi segurar nos apetrechos da minha filhinha. O carro, então, desgovernou-se, capotando no meio da pista. Pensa que isto fez ele voltar e aquietar o facho? Qual nada! Ele sacudiu a poeira e parou o primeiro táxi que passava, pedindo-lhe para seguir, o mais rápido possível, para o Gregos’ Motel. A virgindade da minha filhinha aí se foi! Contudo, acredite, não lhe tive raiva. Gosto dele; é peralta, mas é bom genro. Ferino nas observações, viciado no carteado, adorador de uma cerveja gelada, fiel seguidor de um rabo-de-saia bem avantajado... Eu sei, eu sei; no entanto, creia-me, um ótimo sujeito. Gosto dele, sabia? Estou rezando, agora, um rosário para Santa Luzia; já rezei um para São Francisco das Chagas de Canindé. Ele sairá dessa, apesar dos médicos já o terem desenganado. Deram-lhe dias de vida. Ele vai dar, mais uma vez, é um traço na excomungada da morte! Ele, ora mais, deu vários traços em nós! Sim, meu filho: em mim, na minha menina e no Altamirando Macedo, o meu mui digno esposo, um sujeito que se orgulhava de sua “notável inteligência”. Que Deus o tenha no seu reino!

Confesso que percebi muitas coincidências, e perguntei-lhe:

— O nome do seu genro, Dona Rosalina?

— Do coitadinho?!... Ele foi batizado com a graça de Sávio Carvalho Domingos.

— Como!? E o filho de uma mãe se orgulhava de sua solteirice, alegando a puríssima castidade de ex-seminarista!... — disparei, tomado por uma fúria insana.

 

Clauder Arcanjo

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