(Bené Chaves)


Os sinos da igreja tocam: blemblemblém, blemblém. E os presépios são armados nas casas de Gupiara, com a presença do velhinho de barba branca. A alegria das criancinhas na festa magna da Cristandade, os cartões correndo soltos dos correios às residências. E as poucas árvores enfeitadas com bolas coloridas. Tudo era motivo para uma festa maior.

 

A festa de uma quimera, que luzia mas não medrava. De um homem que jamais morria e somente aparecia de ano em ano. Papai Noel sim é que era imortal. Uma imortalidade criada por uma sociedade consumista e feita às avessas.

 

Aquela fase, meu filho, podia ser a melhor do mundo. Gupiara enfeitava-se, as pequenas lojas alegravam suas vitrines. Parecia ser uma louvação à inocência daquele bondoso povo. Os habitantes mais aquinhoados gastavam aos montes. E o ritual falava mais alto pra banda de seus arredores.

 

Mas, nos arrabaldes próximos dali não existia o ímpeto que se observava no centro da cidade. Muitas vezes nas cercanias e povoados vizinhos, crianças não tinham do que se alimentar. Os casebres eram tristes e escuros. Aquela gente às vezes passava fome de verdade. Ou pior: passava fome o ano inteiro.

 

Até a chegada de um novo ano e a passagem fortuita do velho a tentar amenizar um pouco o sofrimento com ilusões e paliar com palavras confortantes e depois transformadas em decepcionantes no labor cotidiano.

 

Então, meu filho, pensei comigo: que disparidade! E concluí com tristeza nos olhos: todos vêm ao mundo para viver, embora a maioria vegetasse na imundície. Precisávamos dar a parte que cabia aos outros. Acho que o humano não existe, o que conta mais é uma tapeação. E a ilusão que ficara a sombrear os menos favorecidos.

 

Gupiara sabe disso, você também, meu filho. Mainhô e Tia Chica devem saber. Todos estão errados, o mundo está errado. A verdade é um sonho. As pessoas também o são. Eu e você... Daqui mais algum tempo Gupiara talvez nem exista. Ou apenas seja um arremedo do que fora na simplicidade de antes.

 

Blemblemblém, blemblém... Meia-noite e missa rezada na pequena igreja. O padre a dizer uma verdade mística. E um desafio para rapazes e moças que namoravam, apenas namoravam. Poucos rezavam de verdade, muitos parodiavam de mentira. Naquelas circunvizinhanças tudo se mesclava de ambigüidades.

 

Os sinos repicavam e as árvores surgiam belas, aparentemente belas. E no fim de ano todos se congratulavam a espera de dias melhores. Dias que nunca chegavam, intermináveis dias principalmente para aquele povo pobre. Desde cedo a lutar contra a opressão e uma desigualdade social a cada dia mais palpável.

 

E assim Painhô costumava filosofar: meu filho, o homem é inimigo dele mesmo, somente prevalece o interesse e a vaidade em si próprio. Veja esse imenso descampado - e apontou em direção ao infinito. Quão gigantesca é a natureza!, disse. Mas, o ser humano é bem pequenininho, diminuto mesmo.

 

Juro que saí dali convencido que tudo e todo esse festeiro não passava de uma ficção. Meu pai sabia das coisas.