Por Diulinda Garcia de Medeiros Silva
 
    
Iniciando esta abordagem,reflito:

Como eu poderia ser humano
se humano
não pudesse
ser poeta?

PORQUE SOU POETA.
Esse tema é tão instigante,fascinante e livre como é ou deve ser a poesia.Por isso nos permite por ele passear numa diversidade interpretativa vasta,considerando a anatomia subjetiva de sua abrangência,sem nos distanciarmos contudo, do sentir e do traduzir-se de cada um,do que significa a sua própria essência.Assim sendo,me parece que,cada leitura,apreciação ou abordagem a respeito,será  como um RX  da concepção e do entendimento de cada poeta,autor ou mesmo leitor.

As avenidas da vida nem sempre foram ou são largas e pavimentadas para mim.Nesse percurso  devo aqui registrar,o quanto a poesia me ajudou como veículo facilitador na superação das dificuldades encontradas nas curvas e ladeiras mais íngremes encontradas ...misturo aos pedregulhos do cotidiano uma pitada de sonho e imaginação,reinvento, bordo e rebordo a aridez do caminho,costuro as desiluzões e prossigo, viabilizando os acessos aonde a vida me queira levar.Este contexto me reporta  aos versos do poeta  Mário Quintana:"Uma vida não basta ser vivida.Ela precisa ser sonhada."

Percebe-se então, que o olhar do poeta transcende às aparências.Nessa forma distinta de enchergar o mundo em  redor ,ele sai da superfície de sua realidade para fazer um mergulho denso dentro de si mesmo, numa brangência inclusiva de experiências,sentimentos e vivências.Esse estado contemplativo que costumo denominar de investigação poétic,o faz sorver a vida em grandes goles e numa explosão de sentimentos vem à tona uma verdadeira catarse poética,que segundo Aristóteles,liberta e purifica a alma.Vejamos o poema Crepúsculo:

Era como se um crepúsculo houvesse
a derramar-se em sangue
sobre aquele fim de tarde
em que partiste.

RASCUNHO/Diulinda Garcia

Cada poeta é único e por assim o ser,tem o seu próprio estilo,mas encontra todos os abismos dentro de si mesmo.Os seus e os que compõem a sua realidade política,social,pessoal...e muito se aflige ao deparar-se com a densidade da incompletude humana e do seu próprio desasossego.Aí então,escreve para si,para preencher o seu deserto,numa tentativa de traduzir-se e de mostrar ao mundo as desigualdades do  universo onde está inserido,suas injustiças...o poema Foto factual é um exemplo:

Frequentemente me perco
entre a insatisfação contida
de um povo
e a volúpia irreprimida
da indignação.
Faço uma fotografia digital
que revela o olhar adormecido
de um fato social
escondido nos porões do esquecimento
e da miséria.
Lá a dor se pode suportar
a fome deve esperar
e a vida resseca
e se aguenta
na soleira escaldante
o ano inteiro.

 Lucidez de Navalha/Diulinda Garcia

Na construção poética,todas as palavras buscam traduzir a realidade,o sonho e o sentimento
com tal intensidade,que às vezes,necessário se faz o uso de recursos poéticos  como a metáfora,
instigando o leitor a mergulhar no texto,construir sentimentos,emocionar,viajar por dentro
 do que as palavras costuram para num encantamento encontrar-se com o autor numa explosão de sentimentos,identidade e compreensão.

O tema em apreciação(Porque sou poeta),é  tão fascinante quanto ler,escrever e apreciar
o fazer poético de diferentes autores .Cada qual com a sua personalidade poética,seu estilo,suas vivências;histórias,alegrias, dores,sonhos,amores,sentimentos.Embora difícil me pareça,ser poeta é algo imperativo,nsossegável que habita em mim e quer se tornar palavra...quer ser dito, quer também ser lido,livremente.É um verdadeiro transbordamento do que me compõe como essência e me liberta da minha própria incompletude.A poesia é a minha verdade sem filtros.Como expresso no poema Não aprendi a morrer:

Embora a vida me doa
rasgo o tempo
tiro as vestes
começo tudo outra vez
não aprendi a morrer.

Em livro RASCUNHO/Diulinda Garcia

 Texto  apresentado no  dia 31 de Outubro de 2014 no VI Encontro Potiguar de Escritores - VI EPE, na mesa PORQUE SOU POETA.