Clauder Arcanjo

 

Para Oswaldo Lamartine

(In memoriam)

 

Paciência

 

“A paciência é o dicionário dos poetas.”

(Paulo Mendes Campos)

 

Começo da noite. Início da espera.

Madrugada. Longo e comprido aguardar.

Na cumeeira, os olhares dos morcegos, suspensos, silentes. Passivos espectadores.

No cenário, a cama pronta, vazia. No quarto, grande, as mãos, nervosas, a debulharem um rosário infindo.

Ao amanhecer, o sol varando a poeira suspensa dos cômodos abandonados.

Ao canto, sozinha, a imagem da paciência. Santa e poética paciência.

 

***

 

Quase lendário

 

No cipó da noite, na cumeeira da mais esticada vara, do mufumbo mais desprezado, ele nasceu. Era madrugada de céu com estrelas descarnadas e encarnadas — melhor, sanguíneas —, crispadas no véu roto do firmamento, constelações em forma de esporão.

Teve o nada e coisa nenhuma como testemunhas de nascimento. Sem o menor fiapo de bafejo do vento aracati, única clemência naquele perdido rincão, desmundo esquecido por Deus e, hoje desconfio, também pelo Capeta.

Quando da queda, parto no chão de espinhos, o primeiro choro; a mata ficou eriçada. Devido ao susto do berro excomungado, a caipora lançou seu grito choco. Era um menino magro e ralo. Os cabelos, curtos e velhacos, como chuva no sertão de dentro. Os braços e pernas, finos que nem precisão. O estômago, vazio, que nem conversa de sacristão.

Alvorada. Réstia de sol a varar os marmeleiros. O guaxinim lambeu-lhe o umbigo, a raposa guardou-lhe a toca, e o tejo alimentou-o com seu ovo. Batismo do cão.

Na tarde amarelada, quarenta dias e quarenta noites depois, saiu, deixando, por onde passava, um rastro de trevas, fel e gosma, engatinhado esquisito.

Na mata, ele se enfiou para ser quase lendário, estrupício de todos os nossos bichos.

 

 

 

Reflexão Domingueira CCLXXX

 

Se te acusas, ganharás foro privilegiado da inocência presumida. Em primeira instância, nos tribunais da minha culpada agoniação.

 

Reflexão Domingueira CCLXXXI

 

Tal qual a onça caetana, surgias no alpendre da noite longa e cavouqueira... quando ninguém mais achava que tu virias.

 

Clauder Arcanjo