André Valério Sales[1]

 

1. Introdução:

 

            Em 2004 Elaine Eiger & Luize Valente concluíram um filme sobre história dos judeus no Nordeste brasileiro atual, principalmente, mas referindo-se também ao restante do país, e sempre remetendo aos 500 anos passados de “achamento” do Brasil. Em 2005, após todo o trabalho necessário de pós-produção, o filme “A Estrela Oculta do Sertão” foi oferecido ao público.

Inclusive, para quem ainda não viu e ouviu, ele se encontra na Internet, no YouTube, podendo ser “baixado” com todo o seu conteúdo, e também pode ser visto em pequenas partes; trechos de entrevistas, etc.; muitas delas realizadas com a historiadora polaco-brasileira Anita Waingort Novinsky[2], historiadora e professora da Universidade de São Paulo/USP (reconhecidamente a melhor Universidade do Brasil).

Ainda que entreviste pessoas de várias capitais brasileiras e até especialistas de outros países, a linha mestra do filme é o acompanhamento das descobertas buscadas pelo médico paraibano Luciano de Oliveira, partindo de suas dúvidas acerca dos judeus Anussins brasileiros (também chamados Cristãos-Novos, ou Marranos), e especificamente ainda residentes no interior do Nordeste do Brasil. Por isso o nome “Sertão” no título de tão interessante filmagem.

            Apesar de ser uma película relativamente curta (com duração de cerca de uma hora e vinte minutos), para tratar de um tema que envolve bem mais de 500 anos de nossa História, o filme faz um passeio, através de entrevistas gravadas, em busca de indícios, costumes, opiniões de estudiosos do tema, etc., que percorre, por assim dizer, todo o Brasil, e vai até nomes consagrados enquanto especialistas do tema em nosso país, como Anita Novinsky, além de estudiosos europeus, como Nathan Wachtel, antropólogo, professor do Collège de France (uma das consagradas instituições de ensino das mais antigas do Mundo, academia onde Wachtel fundou a cadeira de Marranismo).

            Famoso por sua preocupação com a visão ou a versão dos “vencidos”, com dois importantes livros publicados pela USP, cito uma reportagem com Wachtel, um tanto mais acessível ao leitor comum (“A Versão dos Vencidos”), presente na Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 76, de janeiro de 2012 (págs.: 46 a 91). Wachtel demonstra ali muito de seu conhecimento, e inclusive acerca do Nordeste brasileiro, enfatizando sua necessidade de tentar “salvar a memória de uma geração de pessoas” (id.: 50, grifo meu), e afirma ainda que “A própria cultura sertaneja [nordestina] tem algumas de suas raízes nos cristãos-novos. Esse foi o resultado do meu trabalho, embora eu tenha seguido os passos de Luís da Câmara Cascudo[3], que já estava atento aos elementos judaicos presentes na cultura sertaneja” (id.: 50, grifado no original)[4].

Diga-se de passagem que o documentário proporciona acesso aos leitores do português, francês, inglês e espanhol – via traduções legendadas no filme–, o que ajuda bastante em sua universalização, tendo por isso sua circulação, facilitada deste modo, para estudiosos de muitas de outras nações do mundo.

 

2. O Filme:

 

O motivo principal do filme é mostrar, documentando, a procura do médico paraibano Luciano Oliveira por suas raízes judaicas, de modo que enfoca o seu problema maior: ser reconhecido como judeu de modo natural; ter aceita a sua identidade judia sem precisar se converter mais uma vez, ou batizar-se, já que é descendente de mãe e avó judias[5], e comprovadamente descente de judeus Anussins[6], ou ainda: Marranos[7], Forçados a batizar-se como “cristãos-novos”, tais como aqueles que foram forçados a batizar-se em pé, e aos milhares, pouco antes de D. João VI deixar Portugal e fugir para o Brasil, em 1807.

Que seja aqui lembrada também a existência secular de muitos outros descendentes do povo hebreu que passaram a vir para o Brasil desde o início da colonização (ou “ocupação”) portuguesa em 1500, como observam Anita Novinsky, Nathan Wachtel, Câmara Cascudo e tantos outros. O filme de Eiger & Valente entrevista o genealogista Marcos Filgueira, que como estudioso da história dos Anussins no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, confirma que a partir dos anos 1500, “os nordestinos com raízes maternas em Recife (PE), Salvador (BA)”, “sem dúvidas”: “todos tem raízes judaicas”.

O Dr. Luciano Oliveira é um dos personagens principais do documentário em análise, mas quem realiza o filme são as duas diretoras citadas: Elaine Eiger & Luize Valente; esta última, é preciso ressaltar, também é autora do livro publicado recentemente: “O Segredo do Oratório” (2012), estudo que abrange história dos judeus no Brasil, Europa e América do Norte.

Muitas entrevistas do documentário em questão são feitas pelo próprio Luciano Oliveira, assim como as diretoras da película realizam várias outras. O filme começa com o médico paraibano expondo suas preocupações e curiosidades iniciais em relação à essa religião, o judaísmo (ou Marranismo) que mesmo presente em sua família – detectada através de vários indícios – já se encontrava, na contemporaneidade, esquecida de suas origens.

Na continuação do filme/documentário, vemos a saga do Dr. Luciano tanto na sua busca de mostrar e explicar vários indícios de costumes judaicos presentes até hoje em sua enorme família nordestina, quanto tentar descobrir como ele e os demais interessados (não somente sua família brasileira, mas tantas outras espalhadas pelo mundo), podem ser confirmados como sendo judeus Anussins, sem necessariamente tenham que se reconverterem ao judaísmo. Pois só se reconverte alguém a uma religião, se, antes, ela já havia se convertido, uma primeira vez, a outra crença religiosa; e eles, os Anussins, ainda que não tivessem consciência disso, nunca deixaram de lado seus costumes judaicos! São essas as premissas de vida religiosa para o Dr. Luciano Oliveira.

Este problema mexe de perto, nos dias atuais, com diversas famílias, principalmente nordestinas, tal como é o exemplo do engenheiro potiguar João Medeiros e sua esposa, Marlene, além de seus descendentes (ver o livro autobiográfico de Medeiros: Nos Passos do Retorno: Descendentes dos Cristãos-Novos Descobrindo o Judaísmo de Seus Avós Portugueses, uma joia publicada em Natal/RN, no ano de 2005).

Dr. Luciano lembra de sua infância: que quando era criança, seu bisavô, Manoel Canuto de Oliveira, no município de Salgadinho (PB), na região do Seridó (trecho do sertão, interestadual, entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, que abrange 54 municípios), esperava nas sextas-feiras a primeira estrela alumiar no céu para iniciar então a cerimônia, a portas fechadas – que Luciano ainda não entendia – de acendimento de velas e orações numa língua que ele não conhecia (além da existência de outros costumes que aos poucos ele foi descobrindo: o enterro em “chão limpo”, as mortalhas confeccionadas sempre de cor branca, o não comer a carne de porco, etc.).

Após atingir uma idade de consciência religiosa preocupante para ele, o médico paraibano resolveu pesquisar. Pesquisar dentro de sua própria família, nos arquivos de paróquias (católicas) paraibanas e do Seridó, em cartórios, e inclusive até em São Paulo, com Anita Novinsky (USP) e vários Rabinos judeus[8], ortodoxos ou não – sendo muitas dessas entrevistas presentes no filme que ora é resenhado (além de entrevistas com o francês Nathan Wachtel e inclusive com um Rabino de Israel).

Há cortes no filme para entrevistas e depoimentos de outros especialistas nos estudos judaicos.

 

Dentre estes cortes, as opiniões de Anita Novinsky imperam, acertadamente, pois ela é a maior autoridade no tema Inquisição no Brasil, tendo sido a primeira pessoa no país a estudar a História dos cristãos-novos/marranos.

Desta forma, a historiadora relembra no filme/documentário que na época das Villas do Ouro: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, os judeus criaram (por “N” necessidades, em vistas das perseguições antigas), verdadeiras Sociedades Secretas[9], sociedades ocultas do povo – em geral, do povo católico. Criou-se então práticas clandestinas, cujo valor maior era o segredo. Os casamentos entre judaicos, naquela época, eram endogâmicos, ou seja, ocorriam apenas entre famílias judias e até dentro de uma mesma família (primos com primos, tios com sobrinhas, etc.). Acrescenta Novinsky que os judeus, convertidos forçados ao catolicismo-cristianismo, passavam então por “conflitos dos mais interessantes”[10], afinal, foram mais de 300 anos de presença do Santo Ofício da Inquisição (Católica) em nosso país!

Após o fim da Inquisição, nos anos 1800, reforça Anita Novinsky, com o fim das perseguições e com o fim das documentações destas perseguições, não se sabe para onde foram, ou o que ocorreu com os judeus brasileiros ou portugueses/espanhóis aqui residentes... A História, desde esse tempo, perdeu a oportunidade de ser escrita, contada ou narrada, com a ajuda dos documentos históricos; sejam elas histórias cruéis ou não. Daí em diante, segundo Novinsky, não se sabe o que aconteceu com esse povo no Brasil; para onde se mudaram? Como foi a sua nova “Diáspora”? No caso, agora uma diáspora brasileira ...

De acordo com Câmara Cascudo, depois que os holandeses foram embora do Brasil, em 1654, como eram um povo protestante e mais ou menos ecumênico, tendo dado liberdade ao convívio entre holandeses (e demais moradores do Nordeste) com o povo judaico, os portugueses que retomaram esta parte do país facultaram “a permanência israelita”, obviamente, voltando a obedecerem os ditames dos Reis portugueses, em matéria de conduzirem sua religião, costumes, etc., e Cascudo ainda destaca o fato de que várias famílias judaicas tenham decidido continuar a residir no Nordeste, já que estavam há mais de duas décadas acostumadas com o governo holandês, com a comercialização empreendidas e quase que monopolizadas pelos judeus (Cascudo, 2001: 104). Anita Novinsky repete, no filme de Eiger & Valente essa afirmação cascudiana; ela lembra que com a expulsão dos holandeses os judeus foram se “espalhando” pelo Brasil afora, assim como, essencialmente, pelo interior do país.

Voltando ao Dr. Luciano de Oliveira e sua saga em busca do reconhecimento de sua identidade judaica, agora temos ele indo até a cidade de Pedra Lavrada (PB), município com cerca de 3 mil habitantes, em busca da história de sua bisavó materna e judaica, Dona Minervina Cordeiro.

Em Pedra Lavrada, quase todos são primos, em diversos graus de parentesco, porém, sempre pertencentes à família Cordeiro; todos de sobrenome matrilinear (como mandam os regulamentos de reconhecimento da ascendência judaica). Em sua visita e entrevistas feitas em Pedra Lavrada, emergem as características judaicas da convivência comunitária e familiar específicas, e onde as mulheres exercem papel preponderante. Descobre então Dr. Luciano que sua família descende de um lugar chamado de os “Porcos de Seridó” (um sítio, ou, uma pequena Vila, no linguajar europeu). Esta “Vila”, hoje (em 2014) possui cerca de 6 mil habitantes.

Neste ponto do filme analisado, o historiador Paulo Valadares reafirma a existência da endogamia, do casamento entre primos, etc., e acrescenta que a Igreja Católica, naquele tempo passado, não permitia a consanguinidade, ou seja, o casamento, por exemplo, entre primos, no entanto, a endogamia judaica “mantinha a herança cultural” dentre seu povo (escolhido por Deus, não católico e não adepto do cristianismo).

O documentário passa então a tratar do município mais importante nesta História toda, a cidade de Venha Ver, no extremo sul e oeste do Rio Grande do Norte, parte da seca região conhecida como Seridó.

Conhecido em jornais e entrevistas de judeólogos há mais de 20 anos, este município potiguar vem sendo um exemplo de arqueologia judaica no Nordeste. E tanto há um orgulho dos grandes historiadores sobre Venha Ver, quando tratam do assunto, quanto dos próprios moradores da cidade, que são contemporaneamente conscientes de suas origens judaicas. Os moradores contam, então, várias de suas histórias, com origens eminentemente judaicas, com comprovação inclusive em seus costumes diários; em seus enterros; e em seus cemitérios. De acordo com as entrevistas, muitos moradores afirmam morar no lugar há mais de 200 anos (justamente, mais ou menos, o tempo em que, para nós estudiosos do chamado Brasil Holandês, este povo, os neerlandeses/batavos, aqui viveram e mandaram – no Nordestes brasileiro –, entre 1630 a 1654, portanto, foi uma ocupação que não era anti-judia e que durou mais de duas décadas, o que não é pouco).

Quando os holandeses foram embora do Nordeste do Brasil, em 1654, os portugueses, por sua vez, deixaram livres os judeus aqui residentes (centenas e centenas deles), lhes dando liberdade de continuarem morando no Recife e demais capitais ocupadas pelos batavos. Por medo então do beligerante catolicismo português, muitos judeus decidiram, mais uma vez, fazer uma verdadeira “Diáspora” pelos interiores nordestinos, o que vem a explicar sua presença na região do Seridó: em Pedra Lavrada (PB), em Venha Ver (RN), etc. (ver Câmara Cascudo, 2001: 89 a 111)[11].

Ainda tratando do caso do município potiguar de Venha Ver, com núcleo de cerca de 700 habitantes e mais 2.500 outros moradores espalhados pela área total da municipalidade, a família de maior presença é a de sobrenome Bernardo; e todos os entrevistados no lugar, ainda que católicos de nascença, batizados e crismados, etc., sabem-se e orgulham-se de sua descendência judaica! Os mais idosos insistem que são católicos de nascença. Mesmo que conscientes de sua ascendência e, principalmente, da origem de seus costumes, que alguns apenas explicam como costumes “– Que já vem dos antigos...”.

Além dos Bernardo, ainda há mais 3 famílias que se unem endogamicamente em Venha Ver: os de sobrenome Tomás, Rosendo e Roberto (segundo as entrevistadas). A matriarca da família Bernardo chama-se “dona Cabocla”, que possuía na época da filmagem (2004), cerca de 90 anos: 14 filhos, dos quais apenas 8 mulheres resistiram à vida na seca do interior no sudoeste do Rio Grande do Norte. Destas 8 filhas, dona Cabocla tem mais 102 netos e 42 bisnetos. Dona Cabocla se diz católica “– Desde menina” e revela que houve vários padres católicos em sua família. Católica fervorosa, demonstra, durante as entrevistas seguir várias das tradições judaicas, como a vontade de ser enterrada em “chão limpo” e o costume de jogar fora a água dos potes e jarras quando morre alguém da família, lembrando-se especialmente de ter feito o costume, também eminentemente judaico, quando da morte de seu marido.

Neste trecho, Anita Novinsky confirma que “há famílias com consciência [de sua ascendência judaica], que retornaram à crença”, assim como há outros “que não sabem de nada”, mas que seguem em seu cotidiano costumes “tipicamente judaicos”, mesmo sem saberem o porquê.

 

 

2. 1. Rituais e Costumes Funerários:

 

Sobre este tema, que estudei noutro texto, de cunho etnográfico (Sales, 2014a), é preciso ressaltar que todas as temáticas aqui abordadas estão explicadas, desde 1967 no livro de Câmara Cascudo já citado, no Capítulo 5, “Motivos Israelitas”, no qual ele cita autores que demonstram a presença de vários costumes que adiante serão expostos, não só no Nordeste do Brasil, mas também em outros países (Cascudo, 2001: 167 a 171), ainda que o documentário em análise não cite nenhum autor em seus créditos, além dos especialistas entrevistados.

Repetindo o texto de Cascudo de 1967, ao mesmo tempo em que reforçando a clara vivência na contemporaneidade de vários costumes judaicos ali expostos, os entrevistados do filme de Eiger & Valente relatam que os mais idosos se enterram ainda em terra limpa[12] (Venha Ver/RN), sem caixão (esse mesmo costume já foi parte da história de minha terra, Arez/RN, citado em Sales 2014a): leva-se o morto até o cemitério dentro de um caixão, conhecido como “o caixão das Almas” (guardado no próprio cemitério, no caso de São Paulo do Potengi/RN, ou na Igreja Católica – como em Arez/RN), mas na hora do enterro o morto é retirado do ataúde e enterrado em chão limpo.

Por exemplo, apesar de se dizer católica, dona Cabocla, a prolífica matriarca de Venha Ver, diz que não existia caixão no tempo de seus avós, e adverte com veemência: “– Eu não quero [ser enterrada junto com o caixão]! A terra [é] que come nós (sic)”.

Ela continua narrando que ao morrer alguém, naquela casa a água dos potes deveria ser jogada fora, e depois de um tempo é que seriam enchidos de novo. Continua dona Cabocla: “– Disse que o espírito do morto fica na água”. Infelizmente aqui não há espaço para todas as explicações diferentes existentes acerca deste tema (das águas dos potes serem jogadas fora na casa de alguém que morreu), mas este é, com certeza, um costume conhecido como judaico[13].

Outra entrevistada de Venha Ver (dona Pequena) esclarece que todos naquele lugar só são enterrados de mortalha (feita com um tecido único e costurado de modo a não haver nenhum nó presente na confecção da vestimenta do morto), a não ser que já venha paramentado da empresa funerária.

 

Conhecemos, enfim, a mãe do Dr. Luciano, dona Analice Oliveira, que é quem lhe confere o poder de ser considerado judeu, sem a necessidade de conversão. Ela conta como enterrou um filho de 7 meses: o costume que Cascudo já havia aludido do corte das unhas do morto, do banho antes do enterro, etc.

Agora o documentário se muda para a cidade de São Paulo do Potengi, também no Rio Grande do Norte, e entrevista seu Maciel. É ele quem nos leva a conhecer, dentro do cemitério da cidade, amontoados uns sobre os outros, 7 dos chamados “caixões das almas”, mas ele logo explica que as pessoas não procuram eles. Fica subentendido que ou os mortos de São Paulo do Potengi já vêm prontos da empresa funerária, ou se utilizam do “caixão das almas” como um mero transporte apenas até chegarem à sua cova, sendo lá então enterrados na “terra limpa”. O caixão, terminado o enterro, volta para o quartinho onde é guardado, mais uma vez, por seu Maciel.

Aqui em Arez/RN, meu lugar de moradia, terra de meu pai, onde sou cidadão honorário, este costume já não existe mais. No entanto, em minha pesquisa recente ainda entrevistei pessoas, e soube de outras mais, que têm o desejo de se enterrarem no “chão limpo”, ainda que a família, na hora “H”, não cumpra com o desejo do morto. Uma das explicações que ouvi, em minhas entrevistas etnográficas, foi a da humildade que o morto comprova ao rejeitar o enterro em “caixões de defuntos” ... Lembrando mais uma vez Anita Novinsky: são costumes judaicos, mas que as pessoas não sabem de sua origem, elas apenas cumprem tradições imemoriais das quais já ouviram falar, ou que aprenderam com os mais antigos.

Já sobre outro costume de ascendência judaica, o de colocar pequenas pedras sobre os túmulos, Manoel Moura (filósofo e poeta natalense) explica isso “como forma de lembrar da pessoa que morreu”, e acrescenta que alguns o fazem com consciência da origem do costume, já outras pessoas não sabem porque fazem tais “homenagens” aos mortos. No entanto, segundo ele, “o que importa é que está sendo preservada uma tradição de nossos ancestrais e que não é um costume católico”.

Anita Novinsky comenta no filme, por sua vez, que “desde o sul até o norte” do Brasil existem esses costumes, “tipicamente judaicos”, que aqui persistem desde os tempos coloniais: o enterro em terra virgem; a mortalha nova, sem uso anterior; o corte das unhas do morto; o banho no corpo antes do enterro; o abatimento das aves; dentre outros: todos são feitos, ainda, “à moda judaica”. Ela conclui: “Todos estes são costumes judaicos!”.

Câmara Cascudo em seu livro já citado, de 1967, escrevia há 45 anos, acerca dos costumes judaicos presentes desde 1536 no Monitório do Inquisidor Geral, que: “Todos esses usos e costumes, advertidos no Monitório, foram comuns e correntes na Bahia e Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, e certamente nas Capitanias de baixo, da Bahia para o sul”, ou seja, por todo o Brasil, de norte a sul (2001: 94).

 

3. Conclusão:

 

Voltando à cidade de Natal/RN, dona Marlene Medeiros fala do costume antigo de sua mãe de “sangrar” a galinha antes de levá-la ao fogo, deitando o sangue sobre a terra, um costume judaico explicado no livro de Levítico 17: 14 (“... filhos de Israel. Não comereis o sangue de nenhuma carne, porque a alma de toda a carne é seu sangue”; já para os cristãos, Atos 15: 29 repete: “Que vos abstenhais ... do sangue”, e mais à frente, em Atos 21: 25, o autor volta a advertir aos seguidores do cristianismo que “se guardem ... do sangue”). O esposo de dona Marlene, sr. João Medeiros, explica no filme ora resenhado que com o passar dos anos “coisas se perderam, coisas foram conservadas”, há famílias que conservam tais costumes, outras, não.

Já dona Cabocla, a matriarca de Venha Ver/RN, cita, por fim, outro costume presente até a atualidade no Nordeste brasileiro, inclusive presente ainda hoje em minha terra, Arez/RN: o ato de varrer a casa da frente da casa para o quintal.

Assim como ocorre em Venha Ver, logo que cheguei em Arez/RN, há 14 anos (em 1997), conheci este costume. Logo perguntei sobre seu porquê, mas ninguém sabia explicar. O que se diz é que traz sorte para a casa, ao varrê-la da porta da frente para o quintal.

Dona Cabocla (a matriarca de Venha Ver/RN) diz que: “– Faz mal”, que é um costume da “antiguidade”; que o povo diz que fazer o contrário, varrer a casa da cozinha para a sala, jogando o lixo na frente da casa: “– Leva a fortuna” da casa. “– É uma cisma da antiguidade”[14], explica ela sabiamente; e acrescenta: às vezes nem se varre o lixo para fora, ajunta-se dentro de casa e depois apanha-se com uma pá e joga-se num saco de lixo, para nem se passar o lixo da casa pela porta dos fundos.

Intentando explicar essa tradição, o historiador Paulo Valadares observa que alguns etnólogos afirmam que este é um costume do judaísmo, por causa do respeito à Mezuzáh, objeto que é preso no encaixe da porta de entrada da casa dos judeus, contendo dentro dela partes da Toráh, a serem reverenciadas. Para Valadares, mesmo sem as casas hoje terem mais a presença da Mezuzáh, ficou em alguns lugares o “resquício do antigo costume”. Já o paraibano estrela do documentário, Dr. Luciano Oliveira, assinala que as pessoas sempre explicam o porquê de se varrer o lixo da porta da frente para os fundos da casa, mas não sabem de onde vem esta tradição.

Outro depoimento importante no filme de Eiger & Valente, vem do Monsenhor Araújo, padre de Caicó/RN, ao mesmo tempo católico e praticante do judaísmo, quando afirma que mesmo sabendo de suas práticas sincréticas, nunca ninguém da Igreja Católica reclamou disto; tanto é que ele é famoso como “o Padre Judeu”, uma verdadeira contradição (um oximoro, uma colisão ou paradoxo sem resolução, já que o judaísmo não aceita os costumes católicos)!

Monsenhor Araújo também observa que “nunca houve a menor crítica” ao seu trabalho de “expansão da cultura judaica” em Caicó. Também destaca o Padre que o timbre de seus papéis de carta é iniciado por: “Monsenhor Salvino de Araújo, Judeu da Diáspora, Pároco de Santana de Caicó”, etc., e que manda cartas para o mundo inteiro, sem nunca ter recebido nenhuma reclamação acerca de sua fé nas duas crenças! A importância de sua pessoa está, por exemplo, em ter conhecido Golda Meir, Primeira Ministra de Israel na década de 1970, uma das mulheres mais famosas do mundo, com quem se correspondeu durante muitos anos.

Acerca dos costumes de não comer carne de porco ou de acender velas para os anjos, o antropólogo Nathan Wachtel enfatiza que estes são “costumes que não podem ser explicados a não ser como costumes de origem judaica”. O antropólogo francês acrescenta que desde quando o Brasil era colônia de Portugal, haviam pessoas cristãs e judaizantes a um mesmo tempo (como o Monsenhor Araújo é um exemplo forte), e que na contemporaneidade a situação é tão complexa como antes.

Ao findar a sua participação no documentário, Anita Novinsky destaca que realizou suas pesquisas nos Arquivos da Inquisição Portuguesa, na Torre do Tombo, em Portugal, e que encontrou processos de judeus perseguidos em todo o Brasil: São Paulo[15], Minas Gerais, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, etc., e observa que eles condenavam a todos (à fogueira ou ao cárcere perpétuo), o Santo Ofício “– Não absolvia jamais”[16]. Nas regiões brasileiras mais desenvolvidas economicamente a Inquisição trabalhava mais: quanto mais dinheiro havia em jogo, mais o Santo Ofício da Inquisição atuava. A historiadora ainda cita, de passagem, algo que me interessa de perto: ela diz que sempre a família Bezerra, da qual provém minha mãe, era uma “família importante no Nordeste”, importante, note-se, no sentido de judaica e perseguida[17]. Infelizmente, conclui Anita, até fins dos anos 1700 existem documentos sobre a Inquisição que nos permitem ler o passado, que persistiu por cerca de 300 anos no Brasil. Mas, finda a Inquisição, já a partir dos anos 1800, não houve mais prisões e não existem mais provas históricas, documentais, sobre perseguições a judeus e seus familiares. Portanto, finda a historiadora uspiana com essas palavras: “– A História a partir dos anos 1800, no Brasil, está sendo “desenterrada” agora, na atualidade”.

Novisnky também sustenta, por fim, que a religião judaica é apenas uma parte da questão, é um estado de alma. O judaísmo, por seu lado, é bem maior, tem a ver com sentimentos, com raízes; e os Marranos, a seu modo de entender, devem ser considerados judeus, se eles optarem por isso.

 

4. Bibliografia Citada:

 

A BÍBLIA DAS PROMESSAS. 3ª ed. São Paulo: King’s Cross Publicações, 2005. (trad. João Ferreira de Almeida).

CASCUDO, Luís da Câmara. Mouros, Franceses e Judeus: Três Presenças no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Global, 2001.

MALDONADO, Simone Carneiro. Georg Simmel – Sentidos, Segredos. Curitiba: Appris, 2011. (traduções de Simone C. Maldonado).

MEDEIROS, João F. Dias. Nos Passos do Retorno: Descendentes dos Cristãos-Novos Descobrindo o Judaísmo de Seus Avós Portugueses. Natal: Gráfica Nordeste, 2005.

MELLO, José Antônio Gonsalves. Tempo dos Flamengos. 4ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001.

NOVISNKY, Anita Waingort. A Inquisição. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Coleção “Tudo é História”, nº 49).

SALES, André Valério. Lugares e Personalidades Históricas de Arez/RN. João Pessoa: EdUFPB, 2012.

_____. “Estudos Judaicos: Alguns Indícios em Arez/RN, a Mortalha Branca e sua Presença na Literatura Brasileira”. mimeo, 2014a.

VALENTE, Luize. O Segredo do Oratório. Rio de Janeiro: Record, 2012.

WACHTEL, Nathan. “A Versão dos Vencidos – Entrevista”. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro: SABIN, nº 76, mensal, janeiro de 2012.

 

Filmes Citados:

 

EIGER, Elaine; VALENTE Luize (Diretoras). A Estrela Oculta do Sertão. Rio de Janeiro: FotoTema, 2005.

HAMBURGUER, Cao (Diretor). O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Rio de Janeiro: Gullane Filmes/Caos Produções/Miravista, 2006.

MILOS, Forman (Diretor). “Sombras de Goya”. Espanha: Flashfilmes, 2006.

MONTALDO, Giuliano (Diretor). “Giordano Bruno”. Itália: Versátil, 1973.

 

 


[1]. Assistente social e mestre em serviço social, natalense estudioso da cultura judaica no nordeste, é especialista na obra de Câmara Cascudo inclusive com livro premiado sobre o célebre folclorista potiguar.

[2]. Autora prolífica, o trabalho que eu possuo há anos, e que primeiro me aproximou à sagacidade crítica de Anita, foi o livrinho, pequeno, porém de tema necessariamente denso: A Inquisição, da “Coleção Tudo é História”. Mas a autora tem muito mais livros publicados, tão ou mais importantes quanto o citado.

[3]. É célebre o livro de Cascudo: “Mouros, Franceses e Judeus: Três Presenças no Brasil”, de 1967, essencialmente o Capítulo 5: “Motivos Israelitas”; e remeto o leitor também a um trecho interessante de um de meus livros, pela discussão sobre o judaísmo no Nordeste e pela bibliografia citada (Sales, 2012: 167 a 171), assim como ressalto a importância do livro clássico de Gosalves de Mello, “Tempo dos Flamengos” (2001: 258 a 275).

[4]. Explica Cascudo que o Santo Ofício da Inquisição visitou o Brasil em 1591 a 93 (Bahia), 1593 a 95 (Pernambuco), 1618-19 (Bahia). Sobre estas visitas foram publicados 4 volumes: Denunciações da Bahia, Confissões da Bahia, Denunciações de Pernambuco e o Livro das Denunciações. Afora estes volumes, o mais importante para os Inquisidores foi publicado em Évora (Portugal), por D. Diogo da Silva, em 18 de novembro de 1536, o famoso Monitório do Inquisidor Geral. Era no “Monitório...” que se encontravam as descrições dos costumes judeus (proibidos pelo catolicismo) que ajudaria a lhes incriminar perante o Santo Ofício da Inquisição; e justamente por isso, o “Monitório...” traz inúmeras tradições e costumes judaicos que nos ajudam hoje não apenas a conhecê-los, mas a comparar com tradições da contemporaneidade e perceber que muitos dos costumes continuam vivos em nosso dia a dia, conscientemente ou não, mesmo passados 500 anos de “achamento” do Brasil.

[5]. Para a lei judaica (de nome Halachá) “judeu é aquele que nasceu de mãe judia”. Portanto, quem é descendente de mãe judia, ou convertida, não precisa converter-se outra vez ao judaísmo. A pessoa pode afastar-se, assimilar-se a outras religiões, mas não deixa de ser considera judia também. Não existe culpa, como reafirmam os entrevistados no documentário, em as pessoas desconhecerem suas raízes religiosas!

      Já para outros, em várias partes do mundo, a identidade judaica foi preservada, mesmo que ocultamente (criptojudaísmo), durante séculos. Há que se lembrar aqui, da diferença existente entre os convertidos, por vontade própria, e os retornados, que são aqueles judeus que perderam o contato com as raízes de suas crenças e decidem apenas retornar à tradição de suas crenças familiares/religiosas, e talvez, desejarem voltar ao convívio de seus confrades.

[6]. É hoje normal que se considere os judeus comprovadamente Anussins como pessoas que apenas estão retornando ao judaísmo, que não precisam provar essa sua condição ao mundo, e nem mesmo converterem-se outra vez.

[7]. Marrano, como explica Anita Novinsky é aquele que por fora manteve-se sempre parecendo ser um católico, por necessidades de sobrevivência, por causa da Inquisição, etc., mas que por dentro, nunca deixou de ser judeu, mesmo que fazendo seus cultos, orações e mantendo seus costumes do dia a dia em secreto. Pode ser chamado também de criptojudeu, ou Anussim.

[8]. A religião judaica não tem um Papa, como a Igreja Católica, alguém que centralize poder ou autoridade e cuja palavra seja considerada santa e única. Na verdade se pode falar hoje em “judaísmos”, no plural, pois suas autoridades religiosas são várias e residentes em diversos países (os Rabinos).

[9]. Na Sociologia quem deu-se ao trabalho de estudar e explicar os motivos, formas e meandros das sociedades secretas foi o clássico conhecido como um dos 4 “pais” da Sociologia, Georg Simmel (1858-1918), além de Marx, Durkheim e Weber. Simmel foi um dos precursores de Max Weber, Lukács, Bloch, Adorno, Walter Benjamim, etc. Seus textos mais elucidativos acerca da importância do segredo e acerca da forma das sociedades secretas encontram-se publicados em Maldonado (2011). Recomendo principalmente seu texto mais denso sobre o tema: “A Sociologia do Segredo e das Sociedades Secretas” (id.: 93 a 185). Para Simmel o segredo é baseado nas noções sociais de confiança recíproca, entre iguais; lealdade e pertencimento a um grupo; objetivos de proteção; discrição; silêncio; respeito; relação inclusão X exclusão; dentre outros. Numa sociedade secreta, como as judaicas foram obrigadas a se manter por anos, o segredo aparece como uma “ocultação consciente e voluntária” (Maldonado, 2011: 117, todos os grifos, em negrito ou itálicos, são meus); fica claro também, “o uso do segredo como uma técnica sociológica, como uma forma de ação sem a qual em termos do social não se poderiam alcançar certos fins [a paz de manter suas tradições em segredo]” (id.: 133); por pura necessidade, no caso das “sociedades secretas” judaicas, no Brasil como no mundo, de acordo com a sociologia simmeliana: “o segredo levanta [necessariamente] uma barreira entre os homens [e mulheres]” (id: 135); além disso, acrescenta Simmel: “a primeira relação interna típica da sociedade secreta é a confiança recíproca entre os seus membros. Ela é necessária em tão grande medida, porque o objetivo do segredo é acima de tudo a [necessidade de] proteção” (id.: 149); por fim, esclarece o pensador alemão: “o elemento secreto nas sociedades é um fato sociológico primário, um tipo particular de convivência, uma qualidade formal de relacionamento [entre os membros da sociedade secreta]” (id.: 168).

[10]. Afirmava Cascudo já em 1967: “A história religiosa do povo judeu é um equilíbrio instável [os “conflito interessantes” que Novinsky cita acima] entre o fidelismo mosaico e a sedução dos cultos estrangeiros [católicos, cristãos, etc.]. Nem escapou o Rei Salomão, o mais sábio dos soberanos, esquecido de Iavé e queimando incenso aos ídolos amonitas, sidônios e moabitas. Essa disponibilidade crédula explica a versatilidade do cristão-novo, em raro cristão ou judeu íntegros, participando de ambos os preceitos” (2001: 109, grifado por mim). E acrescenta ainda Luís da Câmara Cascudo: “Esse ecumenismo instintivo [ou sincretismo] estabelece a igualdade dos níveis da percepção psicológica. As heterodoxias judaicas são fatalmente populares” (id.: 110, grifos meus). Por fim, declara Cascudo: “Os motivos israelitas [judeus], fundamentais, circulando na cultura popular brasileira, datam do século XVI” (id.: 111), ou seja, dos anos 1500!

[11]. Apenas a título de registro: sabe-se que após a expulsão dos holandeses, um conjunto de judeus migrou para a América do Norte e lá fundou o que hoje conhecemos por Cidade de Nova York (nos EUA). O historiador pernambucano Gonsalves de Mello (1916-202) estudou holandês arcaico para compreender os Arquivos holandeses sobre a presença neerlandesa no Brasil (de 1630 a 1654) e lembra, em seu livro clássico “Tempo dos Flamengos” que foi aqui fundada a primeira sinagoga das américas, até hoje funcionando na Rua dos Judeus, em Recife (a “Zur Kahal Israel”, ou “Congregação Rochedo de Israel”, que Mello traduziu por “Santa Comunidade Tzur Israel”) cujas primeiras referências documentais, segundo ele, datam de 1636 (2001: 260 e 263); também, ao que tudo indica, “foi no Recife que nasceu a literatura hebraica na América” (id.: 262); e foi ainda na capital pernambucana, durante a ocupação holandesa, que o Rabino Isaac Aboab da Fonseca “compôs poemas e orações” que o fizeram ser o primeiro escritor israelita em terras das Américas (id,: 262, os grifos em negrito são meus), etc.

[12]. Câmara Cascudo já escrevia sobre isso em 1967: “O judeu desejava sempre enterrar-se em terra virgem, onde ninguém o houvesse antecedido. (...) O jazigo em terra virgem era uma garantia de pureza material”. Até Jesus, que era judeu também, enterrou-se “em um sepulcro novo, em que ainda ninguém havia sido posto (Mateus, 27, 60; Lucas, 23,53; João, 19,41. Esse pedido insistente, recomendado nas últimas vontades expressas pelo moribundo, era fielmente atendido por onde os povos judeus residissem. Pelo Brasil, no documentário do Santo Ofício [da Inquisição], os exemplos foram numerosos. (...) As campas eram sinônimo de eternidade” (2001: 99, grifado no original).

[13]. Esclarece Cascudo (2001: 98), também em 1967: “Derramar toda a água contida nas jarras, potes e cântaros quando alguém falecia, foi um dever de uso vulgar, abundantemente citado nas Denunciações. Constitui o mais comum dos hábitos judaicos (...). A superstição espalhada e popular, registada no Monitório, é que as almas dos defuntos vinham banhar-se no líquido. (...) A crendice continua, explicando-se que o espírito do morto, enquanto o corpo estiver exposto no velório, não abandonará o recinto e bebe a água guardada nos recipientes caseiros. Esgotá-la é livrar a família de ingerir o sobejo do defunto, contaminando-se mortalmente”.

[14]. Recorrendo mais uma vez a Câmara Cascudo, escreveu ele que em 1618 Francisco Ribeiro, senhor de engenho, foi denunciado (em Pernambuco) por que “mandava varrer as casas de noite da porta para dentro. Os denunciados eram cristãos-novos. Varrer para fora, ‘varre a felicidade’”. Em Portugal também registram-se as mesmas tradições; e conclui Cascudo: “São crendices popularíssimas no Brasil [desde 1967 quando ele pesquisou, até os dias atuais]” (2001: 102, grifos originais) como eu já afirmei ainda registrar a existência do costume na Arez/RN contemporânea, de 2014!

[15]. Sobre os judeus paulistas do bairro Bom Retiro, sua fraternidade e seus alguns de seus costumes, é interessante citar um filme atual que fez bastante sucesso: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), de Cao Hamburguer, que competiu inclusive no Festival de Cinema de Berlim.

[16]. Existem dois filmes que quero citar aqui, ambos baseados em fatos reais, que comprovam os horrores da Inquisição (a arbitrariedade e o abuso de poder) além de demonstrar o fato de que ela não perdoava jamais: 1) “Giordano Bruno” de Giuliano Montaldo, Itália, 1973. Ator principal de um dos episódios mais polêmicos da História, o processo e execução do astrônomo, matemático e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), foi queimado na fogueira pela Santa Inquisição por causa de suas teorias contrárias aos dogmas da Igreja Católica; e 2) “Sombras de Goya”, de Milos Forman, Espanha, 2006. O filme trata da Espanha dos anos 1700, quando o famoso artista Francisco Goya decidiu interferir entre os Inquisidores em favor de sua musa, Inês, adolescente perseguida pela Inquisição e acusada de heresia. O filme mostra que os horrores perpetrados pelo Santo Ofício da Inquisição se refletiram na obra do pintor, que hoje são testemunho de um período turbulento de nossa História, tenha ela ocorrido em Portugal e Espanha principalmente, atingido brasileiros, mexicanos, dentre tantos outros.

[17]. Lembremos aqui Gonsalves de Melo, ao afirmar que: “os estudiosos são unânimes em esclarecer que no mundo ibérico [de onde partiram a maioria dos judeus que vieram para o Brasil, os sefardins, ou sefarditas] não é possível identificar os judeus pelo nome [ou sobrenome]” (Mello, 2001: 258, grifo meu). Em menor número, também vieram para cá judeus alemães e polacos, os ashkenazim.